Na semana passada a reportagem de capa da Vejinha era sobre a redução no número de mulheres que trabalham como empregadas domésticas ou diaristas e como isso causou uma alta na demanda por essas profissionais e, consequentemente, o aumento dos salários e diminuição da qualidade do serviço. Infelizmente, eu não precisaria ler a reportagem para saber disso.
Desde que saí da casa dos meus pais tive várias faxineiras. A experiência me mostrou que a lua de mel com elas dura, em média, de 6 a 8 meses. Depois disso, elas passam a deixar encardidos em todo lugar, a fazer maquiagem em vez de faxina (quero dizer, fazem uma limpeza por cima, para a casa estar limpa quando você chega de noite e, logo no dia seguinte, lá estão as poeirinhas saindo de trás dos livros e dos móveis), a faltar ou, pior, reclamar do salário e a jogar verde como " ah, eu estou procurando serviço com carteira assinada". Nessa hora, acontece uma das duas coisas: ou você arruma outra ou você se sujeita.
Eu sou uma patroa excelente, modéstia a parte. Pago em dia, do jeito que for melhor para elas (dinheiro, cheque, semanal, mensal). Compro produtos de qualidade que facilitam a limpeza (o armário da área de serviço parece um supermercado). Não exijo horário fixo, desde que o serviço seja feito. Ajudo com comida, roupas, coisas de casa se eu tiver condições e trato bem, além de morar em um apartamento onde tudo e novo, fácil de limpar e de manter limpo. Por isso, eu acho um desaforo enorme quando chego no ponto de precisar mandar embora, coisa que já fiz muito.
Porém, percebi que mandar embora era trocar seis por quatro, ou seja, eu não só não resolvia o problema como ainda encontrava alguém pior ainda. Já tive uma faxineira alcoólatra (a mulher chegava ao meio-dia e mal conseguia segurar uma vassoura, isso quando ela aparecia), fofoqueira (inventava horrores sobre meu marido para minha cunhada, que parou de falar com a gente), porcas (para ela, era normal lavar pano de chão ou pano de prato na máquina de lavar onde eu lavo minhas meias), desbocadas (já ouvi que a diária que eu pagava não dava direito a lavar o chão, só passar pano (!?) - em tempo: o valor em questão foi o valor pedido por ela, sem pechincha!).
Por conta de tudo isso, hoje eu desisti do troca-troca. Prefiro gerenciar o problema a ter que botar dentro de casa alguém que eu nem sei se é de confiança, que não vai me roubar coisas que só vou descobrir tempos depois ou colocar xixi na comida da geladeira. Por tudo isso, hoje eu aguento a Dona Dulce.
A Dona Dulce é muito desastrada. Vê-la limpando a casa é um exercício de paciência para uma pessoa organizada e cuidadosa como eu. Ela deixa o detergente na pia do banheiro, e ainda o arruma em cima da pia como se ele fosse o sabonete líquido. Ela esquece a vassoura na varanda e depois fica rodando pela casa por horas procurando a dita-cuja. Ela não junta as coisas que caem no chão se elas não caírem em local visível - uma vez eu perguntei para ela onde estava o outro pé de uma meia que eu queria usar e ouvi que "pode ter caído atrás da máquina de lavar". Ela quebra e estraga coisas: já quebrou nem sei quantas canecas da minha coleção (a mais recente foi uma caneca que ganhei de um amigo e gostava muito), já queimou uma calça de terno com o ferro (calça o que não conseguimos substituir e agora o marido tem um paletó de terno sem a calça correspondente), já rasgou uma camisa social equanto tirava a camisa da máquina e jogou fora (!) várias barbatanas das camisas sociais do marido.
A Dona Dulce não lava roupas: ela não sabe a medida certa de sabão e quando ela lava as roupas ficam todas cheias de sabão em pó. Mudei então para sabão líquido. Porém, a Dona Dulce também não sabe a medida e acabou com 1L de sabão líquido em duas semanas, lavando a roupa umas cinco vezes... Além disso, ela lava os panos de chão com Vanish (pensemos: um pote de Vanish custa R$ 12, um pano de chão custa R$ 1 no tiozinho do cruzamento da Brasil com a Rebouças. Assim,
por que raios eu quero um pano de chão branco???) Ela também não esfrega os colarinhos das camisas, que saem todos encardidos do varal. Solução: em casa, só eu lavo a roupa.
A Dona Dulce não limpa nem arruma os armários. A não ser que eu queria panelas misturadas com os copos e os pratos no mesmo armário da despensa, eu mesma prefiro fazer isso. Os guarda-roupas, então, nem pensar, a não ser que eu queria achar cuecas do marido na minha gaveta de sutiãs... Solução: em casa, só eu limpo e arrumo os armários.
A Dona Dulce não controla o estoque de produtos de limpeza. Quando eu combinei com ela de me avisar quando algum produto
estivesse para acabar, ela me ligou no trabalho para informar que o sabão em pó tinha acabado e perguntou se eu tinha deixado o dinheiro para comprar mais. Eu disse que não, porque o combinado ela me avisar quando o produto
estivesse para acabar e ela disse que entendeu errado, se desculpou mas informou não ia lavar a roupa então. Em outra ocasião, ela me avisou que a cera do piso de madeira estava para acabar. Acabei esquecendo de comprar naquela semana e, na noite anterior ao dia em que ela vinha eu fui no Pão de Açúcar 24h e paguei incríveis R$ 18 reais em 300ml de cera. Ela veio no dia seguinte, não encerou o chão e, no final de semana, durante minha arrumação semanal da área de serviço, eu achei uma cera novinha no armário, que ela não viu!
A Dona Dulce não segue listas de tarefas. Toda semana eu deixo uma lista de coisas para ela fazer e, quando chegou a noite, nada da lista está feito, mas sim outras coisas. Aliás, se eu não estou em casa para tocar o serviço dela a coisa sai de controle. Os vidros, as janelas, a geladeira, ela só limpa se eu estiver em casa para olhar. Se não, ela passa o limpa vidros ou tira as sujeiras mais aparentes da geladeira e boa.
Entretanto... A Dona Dulce é muito honesta. Mesmo sabendo que eu não vou gostar ela me conta das coisas que ela quebrou (com exceção da caneca citada acima, que ela disse que esqueceu de avisar.) Ela sempre deixa o dinheiro que ela encontra nos bolsos das calças na caixinha do escritório. Ela sempre devolve o troco quando eu deixo dinheiro para ela buscar coisas na lavanderia ou no mercado. Eu nunca dei falta de nada, nem produto de limpeza, nem comida, nem nada.
A Dona Dulce nunca faltou. Ela trabalha aqui há 18 meses e nunca faltou. Chegar tarde é outra história mas, tenha chuva, enchente, greve de trem e metrô, a Dona Dulce sempre chega.
A Dona Dulce é esforçada. Eu falo para ela do que eu não gosto e ela tenta melhorar. Eu vejo que o esforço dela é genuíno mas nem sempre efetivo porque ela é uma pessoa simples. Tanto que quando eu estou em casa para tocar o serviço dela as coisas andam às mil maravilhas.
A Dona Dulce adora trabalhar aqui. Ela sempre diz isso, sempre deu preferência ao serviço dela aqui quando outras casas onde ela também trabalha pedem que ela troque de dia, ou vá trabalhar lá no dia dela aqui.
A Dona Dulce sempre faz as comidas que o marido pede. Se ele quer arroz e carne de panela, ela faz e deixa pronto, quentinho no fogão.
Assim, botando tudo na balança, eu não tenho mesmo motivo para mandar a Dona Dulce embora. Acho que eu é quem preciso ser mais paciente com o jeito dela. Vou tentar. Prometo!